Abril 24, 2011

Sexta-feira da Paixão

Eu sabia o caminho do hotel. Um hotel sem nome ou reputação, um hotel de ocasião, de putas, travestis e jovens sem carros, como eu e ele. Não tive vergonha de subir, nem de pedir um quarto e nem mesmo de perguntar se havia camisinhas para vender. 

O número da chave era 8, se não estou enganando. Caso pudesse, escolheria um número com mais simbologia, mas o 8 não deixa de ser o sinal de infinito de pé, ereto. Teria dito isso para ele, não pude.

O interfone tocou no quarto depois de uma hora, o tempo tinha acabado, passou rápido, porque não havia passado quase nada ainda, a camisinha com sangue esquecida em um canto do quarto construía um cenário feliz para dois jovens infelizes, para sempre infelizes.

O que dói não é a infelicidade em si, mas tão somente a sensação de que ela vai durar para sempre, que irá permanecer ao seu lado como um irmã mais nova que nunca irá crescer.

Ele apagou a luz uma, duas, três vezes, eu acendi novamente todas as vezes. Lembrando agora havia uma janela, uma grande e notável janela, onde poderia se apreciar a vista noturna da Praça das Flores, olhar o Paço com as luzes modernas que o tornam vísivel, desertamos.

Voltamos ao bar, os dois juntos, mas sem mãos atadas. Os corpos cambaleantes estavam desunidos em um gesto incrívelmente lúcido de que o que viria a seguir era solidão, mais dele do que minha, ou mais minha do que dele. 

Porque ninguém sabe sobre a solidão dos outros: apenas suspeita-se, espia-se.Os cabelos molhados sendo secos pelo bafo da última parte da madrugada, a pele ainda úmida e os olhos abertos. Éramos ali dois incapazes, um (sem vergonha ou qualquer ingenuidade) querendo amor, o outro não querendo nada.

                                         

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